Pessoas e cultura
Porque são pretos e brancos os passeios de Portugal?
Pequenas pedras, talhadas e assentadas à mão, desenham as ondas do Rossio e padrões geométricos nas ruas e praças portuguesas.
A calçada portuguesa faz-se com pequenas pedras talhadas e assentes à mão. O contraste de cores permite desenhar ondas, cercaduras e figuras no chão. O preto e branco é a combinação mais conhecida, mas as rochas e as cores variam de região para região.
Onde começou esta calçada decorativa?
A tradição moderna ganhou forma em Lisboa na década de 1840. Em 1842, o engenheiro militar Eusébio Pinheiro Furtado mandou presos calcetar uma zona do Castelo de São Jorge a preto e branco. Era trabalho forçado. O inventário nacional do património descreve as grilhetas que os homens transportavam nos tornozelos.
O resultado levou à obra de maior dimensão no Rossio, concluída em 1849. Já existiam ruas empedradas muito antes. A data de 1842 assinala uma transformação na prática decorativa, não a invenção do pavimento de pedra.
A pedra preta é sempre basalto?
Não. Boa parte da calçada preta e branca que hoje se encontra em Lisboa usa calcário de ambas as cores. O calcário escuro é diferente do basalto, uma rocha vulcânica. Na obra inicial do castelo estão documentados calcário e basalto.
A pedra local dá à calçada diferenças regionais. O basalto destaca-se nos Açores e na Madeira, o granito surge no Norte e no Alentejo há exemplos de mármore e xisto.
Explore três desenhos de calçada
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Ondas do Mar Largo
Rossio, Lisboa

Rossio em 1 de julho de 2009. A alternância das faixas cria a impressão de movimento num chão plano. Pedro Ribeiro · CC BY 2.0 Mar Largo é o nome do padrão de ondas colocado no Rossio em 1849, evocando a expansão marítima portuguesa. A calçada foi entretanto reconstruída.
- Material
- Pedra natural clara e escura.
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Geometria de Eduardo Nery
Praça do Município, Lisboa

Praça do Município em 28 de maio de 2018. A composição de Nery ocupa a zona pedonal que rodeia o pelourinho. Nan Palmero · CC BY 2.0 Eduardo Nery desenhou esta calçada para a repavimentação da Praça do Município em 1997–1998. Triângulos e quadrados repetem-se por reflexão e rotação.
- Material
- Cubos de pedra clara e escura talhados à mão.
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Cercaduras e motivos vegetais
Avenida da Liberdade, Lisboa

Avenida da Liberdade em 28 de abril de 1951, vista de uma varanda. As molduras retangulares alternam com motivos curvos. ETH-Bibliothek Zürich, Bildarchiv · CC BY-SA 4.0 Esta imagem de arquivo mostra motivos vegetalistas e cercaduras repetidas na Avenida da Liberdade em 1951. A avenida integra o roteiro oficial de calçada portuguesa de Lisboa.
- Material
- Mosaico de pequenas pedras naturais.
Como trabalha um calceteiro?
O calceteiro escolhe a face da pedra que ficará à vista, aparelha as arestas com o martelo de passeio e assenta-a numa cama de areão. As peças vizinhas têm de encaixar e travar entre si.
Um desenho de grande dimensão pode recorrer a moldes. O ajuste de cada pedra continua a depender da mão de quem a coloca. O preenchimento ao quadrado e o malhete de peças poligonais exigem talhes diferentes. A escola municipal de Lisboa ensina o ofício desde 1986.
Porque preocupa a falta de profissionais?
Em 16 de janeiro de 2026, o Governo indicou uma idade média dos calceteiros entre os 55 e os 60 anos. Referiu apenas 22 certificações profissionais formais entre 2021 e 2024. Em cerca de metade dos municípios, todos os elementos das equipas tinham mais de 50 anos.
Os números apontam para a falta de entrada de profissionais mais jovens, sobretudo nas equipas municipais. O Governo anunciou um grupo de trabalho sobre competências e formação, enquanto a escola de calceteiros de Lisboa continua a ensinar o ofício. O total de certificações conta qualificações formais, não todos os trabalhadores em atividade.
A calçada já está inscrita na UNESCO?
Em 19 de setembro de 2026, existe uma candidatura, mas ainda não uma inscrição na UNESCO. A entrada no inventário nacional, em 2021, com necessidade de salvaguarda urgente, corresponde a outro reconhecimento.
A Resolução da Assembleia da República n.º 55/2026, publicada em 24 de março, instituiu 22 de julho como Dia Nacional do Calceteiro e da Calçada Portuguesa. Recomendou também apoio à formação e a continuação do trabalho de candidatura à UNESCO.
Como conciliar património e acessibilidade?
O passeio dá acesso ao autocarro, ao comércio e à porta de casa. Pedras soltas e juntas desniveladas podem prender uma roda ou provocar uma queda. Uma superfície polida exige especial cuidado quando está molhada.
As normas portuguesas de acessibilidade exigem pavimentos estáveis, firmes e contínuos, com resistência ao deslizamento nos locais sujeitos a água. Importam o acabamento e a manutenção. Na consulta sobre o Eixo Almirante Reis, em Lisboa, surgem pedidos de conservação da calçada e de melhoria das condições para andar a pé.
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