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Porque são pretos e brancos os passeios de Portugal?

Pequenas pedras, talhadas e assentadas à mão, desenham as ondas do Rossio e padrões geométricos nas ruas e praças portuguesas.

Calçada geométrica preta e branca em redor do pelourinho da Praça do Município, em Lisboa.
O desenho de Eduardo Nery na Praça do Município, fotografado em maio de 2018. As pequenas pedras mudam de orientação dentro de cada figura maior. Imagem recortada. Nan Palmero. CC BY 2.0.

A calçada portuguesa faz-se com pequenas pedras talhadas e assentes à mão. O contraste de cores permite desenhar ondas, cercaduras e figuras no chão. O preto e branco é a combinação mais conhecida, mas as rochas e as cores variam de região para região.

Onde começou esta calçada decorativa?

A tradição moderna ganhou forma em Lisboa na década de 1840. Em 1842, o engenheiro militar Eusébio Pinheiro Furtado mandou presos calcetar uma zona do Castelo de São Jorge a preto e branco. Era trabalho forçado. O inventário nacional do património descreve as grilhetas que os homens transportavam nos tornozelos.

O resultado levou à obra de maior dimensão no Rossio, concluída em 1849. Já existiam ruas empedradas muito antes. A data de 1842 assinala uma transformação na prática decorativa, não a invenção do pavimento de pedra.

A pedra preta é sempre basalto?

Não. Boa parte da calçada preta e branca que hoje se encontra em Lisboa usa calcário de ambas as cores. O calcário escuro é diferente do basalto, uma rocha vulcânica. Na obra inicial do castelo estão documentados calcário e basalto.

A pedra local dá à calçada diferenças regionais. O basalto destaca-se nos Açores e na Madeira, o granito surge no Norte e no Alentejo há exemplos de mármore e xisto.

Explore três desenhos de calçada

  • Ondas do Mar Largo

    Rossio, Lisboa

    Faixas onduladas de calçada diante do Teatro Nacional D. Maria II.
    Rossio em 1 de julho de 2009. A alternância das faixas cria a impressão de movimento num chão plano. Pedro Ribeiro · CC BY 2.0

    Mar Largo é o nome do padrão de ondas colocado no Rossio em 1849, evocando a expansão marítima portuguesa. A calçada foi entretanto reconstruída.

    Material
    Pedra natural clara e escura.
    Fonte e informações de visita
  • Geometria de Eduardo Nery

    Praça do Município, Lisboa

    Triângulos e quadrados na calçada em redor do pelourinho de Lisboa.
    Praça do Município em 28 de maio de 2018. A composição de Nery ocupa a zona pedonal que rodeia o pelourinho. Nan Palmero · CC BY 2.0

    Eduardo Nery desenhou esta calçada para a repavimentação da Praça do Município em 1997–1998. Triângulos e quadrados repetem-se por reflexão e rotação.

    Material
    Cubos de pedra clara e escura talhados à mão.
    Fonte e informações de visita
  • Cercaduras e motivos vegetais

    Avenida da Liberdade, Lisboa

    Fotografia de arquivo da Avenida da Liberdade, com cercaduras de calçada sob as árvores.
    Avenida da Liberdade em 28 de abril de 1951, vista de uma varanda. As molduras retangulares alternam com motivos curvos. ETH-Bibliothek Zürich, Bildarchiv · CC BY-SA 4.0

    Esta imagem de arquivo mostra motivos vegetalistas e cercaduras repetidas na Avenida da Liberdade em 1951. A avenida integra o roteiro oficial de calçada portuguesa de Lisboa.

    Material
    Mosaico de pequenas pedras naturais.
    Fonte e informações de visita

Como trabalha um calceteiro?

O calceteiro escolhe a face da pedra que ficará à vista, aparelha as arestas com o martelo de passeio e assenta-a numa cama de areão. As peças vizinhas têm de encaixar e travar entre si.

Um desenho de grande dimensão pode recorrer a moldes. O ajuste de cada pedra continua a depender da mão de quem a coloca. O preenchimento ao quadrado e o malhete de peças poligonais exigem talhes diferentes. A escola municipal de Lisboa ensina o ofício desde 1986.

Porque preocupa a falta de profissionais?

Em 16 de janeiro de 2026, o Governo indicou uma idade média dos calceteiros entre os 55 e os 60 anos. Referiu apenas 22 certificações profissionais formais entre 2021 e 2024. Em cerca de metade dos municípios, todos os elementos das equipas tinham mais de 50 anos.

Os números apontam para a falta de entrada de profissionais mais jovens, sobretudo nas equipas municipais. O Governo anunciou um grupo de trabalho sobre competências e formação, enquanto a escola de calceteiros de Lisboa continua a ensinar o ofício. O total de certificações conta qualificações formais, não todos os trabalhadores em atividade.

A calçada já está inscrita na UNESCO?

Em 19 de setembro de 2026, existe uma candidatura, mas ainda não uma inscrição na UNESCO. A entrada no inventário nacional, em 2021, com necessidade de salvaguarda urgente, corresponde a outro reconhecimento.

A Resolução da Assembleia da República n.º 55/2026, publicada em 24 de março, instituiu 22 de julho como Dia Nacional do Calceteiro e da Calçada Portuguesa. Recomendou também apoio à formação e a continuação do trabalho de candidatura à UNESCO.

Como conciliar património e acessibilidade?

O passeio dá acesso ao autocarro, ao comércio e à porta de casa. Pedras soltas e juntas desniveladas podem prender uma roda ou provocar uma queda. Uma superfície polida exige especial cuidado quando está molhada.

As normas portuguesas de acessibilidade exigem pavimentos estáveis, firmes e contínuos, com resistência ao deslizamento nos locais sujeitos a água. Importam o acabamento e a manutenção. Na consulta sobre o Eixo Almirante Reis, em Lisboa, surgem pedidos de conservação da calçada e de melhoria das condições para andar a pé.

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